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Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.
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Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.
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O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio…
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Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.
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Depois, tudo estará perfeito:
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.
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-Cecília Meireles-
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Pus meu sonho num navio – Cecília Meireles
Análise e Comentário
Este poema canta o desejo do sujeito poético de acabar com os seus sonhos, como pode ver-se nos versos “Pus meu sonho num navio/e o navio em cima do mar;/ (…) /para o meu sonho naufragar” e “Depois, tudo estará perfeito;”. Note-se que, nas palavras do sujeito poético, se reflete a ideia de que não só queria naufragar os seus sonhos, como conseguiu fazê-lo:
“debaixo de água vai morrendo/ meu sonho, dentro de um navio…”. Quis
fazê-lo porque não queria chorar mais, porque queria a calma que os sonhos não deixam existir (a este propósito, veja-se a sua definição de perfeito: “praia lisa, águas ordenadas,/ meus olhos secos como pedras/ e as minhas mãos quebradas”). Parece-me que, neste poema, o sujeito compara a sua vida, ou a sua pessoa, ao mar: uma paisagem de bonança, da calma que sucede à tempestade, na qual naufragaram os seus sonhos. O sujeito, como mar
que é, controla-se, e consegue aumentar as ondas o suficiente para naufragar o navio; é isso que faz: esforça-se por afundar o barco, porque não gosta de sonhos, ou gosta, mas não é capaz de viver com eles.
Considero que este poema tem uma carga emocional muito forte: é a confissão de alguém que desistiu dos seus sonhos, da vida que gostaria de ter, para ter uma vida mais calma. Sim, porque o sonho é algo doloroso, que exige trabalho, esforço, dedicação e luta e, por vezes, nem todas as pessoas aguentam. É o caso deste sujeito lírico: não aguentou, desistiu dos seus sonhos. Fez mais que isso: ele próprio destruiu o seu sonho, talvez por desilusão, talvez por cansaço, através da abdicação da luta. É um poema muito especial, porque toca
aquela sensação de fraqueza que muitas vezes nos faz desistir dos nossos sonhos, ainda que temporariamente. E quantos seres que sonham, nunca sentiram a tentação de desistir, só porque é mais fácil?
João Pedro Sousa
11ºA 2009/10
http://www.aev.edu.pt/ficheiros/noticias/Cecilia_Meireles
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