As Promessas (Rubem Alves)


As Promessas

Não ligo para aquilo que os meus inimigos pensam de mim. O que eles pensam nada revela a meu respeito – mas diz muito sobre as condições do seu trato digestivo. Nietzsche dizia que havia pessoas que não gostavam dele porque suas palavras eram fogo para suas bocas. Mas as palavras, como as pimentas, podem ser fogo na boca e fogo em outro lugar. Quem diz que não gosta de pimenta, fico logo suspeitando que sofra de hemorroidas. Assim, não ligo se alguém pensar mal de mim.

Mas se os meus amigos pensarem mal de mim – isso sim vai me causar sofrimento. Se pensam mal de mim sendo meus amigos, isso quer dizer que existe uma pitada de verdade nos seus pensamentos. Os pensamentos dos amigos são espelhos. Aí vou ficar com vergonha, e vou começar a fugir da presença deles.

Deus é feito a gente. Não sofre nem um pouco com aquilo que o Diabo e sua gangue pensam dele. Mas o caso é diferente quando o que está em jogo são calúnias e vilezas que dele pensam – quem diria? – justamente aqueles que se dizem seus amigos. Acho mesmo que este é o sentido da doutrina da Igreja, que afirma que o Filho de Deus continua a ser crucificado todos os dias – tantas vezes quantas missas forem celebradas. Sempre me perguntei se esses sacrifícios não teriam fim. Só tardiamente compreendi que N.S. Jesus Cristo não para de ser crucificado porque os que se dizem seus filhos, amigos, adoradores, devotos, etc., não param de espalhar aos quatro ventos mentiras horríveis sobre o seu caráter e os seus sentimentos. Abertamente eles não têm coragem de dizer. Abertamente é só piedade e temor. Falam “graças a Deus“, “se Deus quiser“, “louvado seja Deus“, fazem sinal da cruz, vão às igrejas, acendem velas, leem a Bíblia. Mas secretamente, à boca miúda, sem palavras, espalham que Deus é um anormal, sádico, corrupto que se vende por pouca coisa. E isso é a pior cruz para ser sofrida: os maus pensamentos dos amigos. Se eu tivesse amigos assim, trataria de me mudar para bem longe deles.

Se você não está entendendo o que estou dizendo, trato de explicar.

Quando a gente dá uma coisa a gente está dizendo o que pensa do outro que recebe o presente. Dou água para a planta porque sei que planta gosta d\’água. Dou um osso para um cachorro porque sei que cachorro gosta de osso. Dou alpiste para um passarinho porque sei que passarinho gosta de alpiste.

Isso vale também para os presentes que damos às pessoas. Eu estava com um casal amigo fazendo compras numa loja de presentes. Muitas eram as opções. Entre elas uns aventais lindos, coloridos, finos. Era ver e sentir-se tentado a dar um de presente para a mulher. Minha amiga, esposa do meu amigo, me segredou baixinho: “Se ele (o marido) me der um avental de presente, eu me divorcio…“ Claro! O presente estaria dizendo: “Querida, como você fica bonita na cozinha!“ Mas ela não queria ser definida como cozinheira. O presente diz o que a gente pensa que o outro é.

Um CD de música clássica diz que o outro, tal como ele existe na minha cabeça, é um apreciador de música erudita. Se o CD for de sax-jazz já a imagem do outro será diferente, mais sensual. Um livro de poesia dirá ao outro que ele (ou ela) é uma pessoa sensível e amante do silêncio. Panelas, ferramentas, brinquedos, echarpes, cuecas de seda, sutiãs de rendinha, um livro de arte erótica, uma garrafa de vinho, Bíblias e terços, caixas de bombons: cada um desses presentes diz ao outro o que penso dele.

Deus também merece presentes. Deus também quer ficar feliz. As pessoas que dizem gostar dele tratam de dar-lhe presentes (como os Magos) – os melhores, os que lhe darão maior prazer. Presentes para fazer Deus sorrir de felicidade, presentes para fazer Deus voltar a ser criança! O presente que dou deve ser a realização do desejo do outro. E quais são os desejos de Deus – a se acreditar nos presentes que lhe são oferecidos?

Antigamente os mais devotos, para fazer Deus ter prazer, se autoflagelavam com chicotes e coisas pontudas. Quando eu era menino vi mulheres carregando pesadas pedras nas cabeças, como presente a Deus. Hoje estas coisas viraram presentes brega. Deus melhorou, e só aceita cascas de feridas mais delicadas. Na casa de presentes a Deus se encontram, por exemplo, as seguintes opções: subir, de joelhos, o caminho até a igreja do PE. Cícero; subir, de joelhos, a escadaria da Igreja da Penha; arrastar uma cruz, a pé, por cinquenta quilômetros; ficar sem comer por três dias; abster-se de beber cerveja por todo um mês; não tomar Coca cola por nove meses; não transar ou não se masturbar até que a graça seja concedida.

O que dizem tais presentes sobre o caráter de Deus? Dizem que ele não é Deus, é um ser monstruoso, sádico, que fica feliz quando nós sofremos; corrupto, concede graças a troco de dor. Se eu fosse Deus trataria de me mudar para bem longe, um outro universo onde só houvesse plantas e animais. Plantas e animais entendem mais de Deus do que nós. Portanto, com um pedido de perdão por tanta ofensa, sugiro que na passagem do ano façamos promessas bonitas a Deus, promessas que digam que o achamos normal e bonito como nós. Ele não é sádico. Não tem orgasmos quando nós sofremos. Ele sofre quando sofremos e dá risadas quando damos risadas. Assim, se oferecermos presentes de felicidade ele ficará feliz e voltará. Como exemplo aqui vão algumas das promessas que farei.

Vou andar diariamente, sem obrigação de fazer exercício, por algum bosque ou jardim desse universo maravilhoso, por puro prazer. Vou comprar uma cachorrinha cocker-spaniel.

Vou gastar tempo observando o voo dos pássaros, a forma das nuvens, a folhagem das árvores. Vou ver de novo O Poeta e o Carteiro. Vou fugir do agito, do ruído, da confusão. Vou cultivar a solidão e o silêncio: um espaço sagrado. Vou fazer um jardim Zen, com água e sinos que o vento toca. Vou ouvir muita música, canto gregoriano, Bach, Beethoven, Mahler, César Franck. Vou ler o Fernando Pessoa inteiro. Vou aprender a cozinhar. Vou receber os amigos. Vou beber cerveja, vinho, Jack Daniels. Vou brincar, com coisas e com pessoas.

Que Deus me ajude. E que ele se alegre com minhas promessas.

(Transparências da eternidade, Verus, 2002)
Fonte: http://www.rubemalves.com.br/aspromessas.htm

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Sobre daurabrasil

Experimento a quietude e adentro meu sítio íntimo. Amplio a sensibilidade... E, com liberdade, encontro-me com a Poesia. Situo ainda algumas questões e o que elas implicam... Sem anular o pensamento, ouso revelá-las, refletindo o sentir e o consentir. (Daura Brasil) * * *
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